I can do this in one take – Janis Joplin
Ela não precisava pedir licença.
Não passava despercebida. Ela era inteira. No estúdio, no palco, no festival. Às vezes áspera, às vezes vulnerável, sempre debochada. Inconfundível. Essa era a Janis!
Meu relacionamento com a música sempre foi de muitas histórias e poucos instrumentos. Eu não toco nada, não canto, mas, de algum jeito, a música sempre acaba atravessando a minha vida por pessoas, lugares e acontecimentos improváveis.
Uma dessas histórias aconteceu muitos anos atrás.
Era outono e eu passava o fim de semana na casa da minha então sogra, em New Hampshire. Uma casa romântica no meio da floresta, cercada pelas cores da estação. Na sala, um sofá de florzinhas, prateleiras cheias de bibelôs e aquela atmosfera de casa arrumada e tranquila. Casinha de filme americano…
Eu tomava chá.
Ela tomava uma cerveja e fumava um cigarro.
Quando a conheci, eu a via como uma mulher absolutamente integrada à vida adulta: executiva, roupa social, salto alto, cabelo impecavelmente alisado.
Até que, no meio da conversa, como quem conta uma coisa qualquer, ela disse:
“Eu estive em Woodstock.”
Eu olhei para ela sem entender.
Como assim, você esteve em Woodstock?
De repente, toda a imagem que eu tinha daquela mulher elegante e comportada desmoronou diante de mim. Nada naquela imagem me faria imaginar aquela mulher na lama, de mochila nas costas, ouvindo rock e fumando um baseado.
Ela me contou que tinha ido para o festival daquele jeito que hoje parece ser loucura: mochila, estrada, alguns dias fora, espírito hippie. Depois, a volta para casa como se aquilo tivesse sido apenas mais uma aventura da juventude.
Foi nesse contraste, entre o sofá de florzinha e a palavra Woodstock, que a história da música mudou de lugar para mim.
Ela deixou de morar apenas nos grandes palcos, nos livros, nos discos e nas fotografias famosas. Passou a morar também nas pessoas que estiveram lá, voltaram para casa e simplesmente continuaram vivendo.
E numa daquelas madrugadas de Woodstock estava Janis Joplin.
Em agosto de 1969, Janis já era uma estrela. Subiu ao palco com a Kozmic Blues Band e levou para aquela multidão a mesma intensidade que vinha construindo desde muito antes de o mundo aprender seu nome.
Mas a história começara bem longe dali.
Nascida no Texas, Janis encontrou no blues uma linguagem que parecia caber melhor nela do que o mundo ao seu redor. Ainda jovem, passou por cafés, pequenos palcos e apresentações acústicas. Ouviu e absorveu artistas como Bessie Smith, Lead Belly e Big Mama Thornton, transformando aquelas referências em alguma coisa profundamente própria.
Depois veio San Francisco.
Com a Big Brother and the Holding Company, Janis encontrou espaço para toda a sua grandeza. E foi no Monterey Pop Festival, em 1967, que muita gente a ouviu de verdade pela primeira vez.
Monterey mudou tudo.
Depois daquele palco, ela deixou de ser apenas uma figura da cena de San Francisco. Vieram atenção nacional, discos, turnês, plateias maiores e canções que ficariam para sempre ligadas ao seu nome, como “Piece of My Heart” e “Ball and Chain”.
Janis era inquieta demais para permanecer no mesmo lugar.
Seguiu caminho próprio com a Kozmic Blues Band e depois com a Full Tilt Boogie Band. Sua música também se movimentava: blues, rock, soul, R&B. Tudo atravessado por aquela forma particular de cantar como se não houvesse distância entre emoção e voz.
E não havia.
Em 1970, começou a trabalhar no álbum que se tornaria Pearl.
O disco seria lançado apenas em janeiro de 1971, depois de sua morte, e reuniria algumas das gravações mais marcantes de sua carreira: “Cry Baby”, “Move Over”, “Me and Bobby McGee”, “Get It While You Can” e uma pequena canção a cappella chamada “Mercedes Benz”.
Janis entrou no estúdio praticamente nua: sem banda, sem instrumentos, apenas a própria voz — e gravou “Mercedes Benz”.
A letra brincava com desejo, consumo e aquela promessa quase absurda de que a felicidade pode ser comprada: um Mercedes-Benz, um Porsche, uma televisão.
Três dias depois, em 4 de outubro de 1970, ela morreu em Los Angeles, aos 27 anos. Mais tarde, seu nome seria associado ao chamado “Clube dos 27”.
Mas reduzir Janis à maneira como morreu é diminuir tudo aquilo que ela fez enquanto esteve viva.
Ela construiu uma linguagem própria, levou o blues para uma geração que estava inventando novas maneiras de ouvir rock e ocupou espaços que, naquela época, ainda eram esmagadoramente masculinos.
Janis não era enfeite na frente de uma banda.
Era o centro da tempestade.
Talvez seja por isso que, mais de meio século depois, aquela voz continue parecendo tão feroz.
Ela não envelheceu conosco.
Mas continua em cada Mercedes que passa por mim, em cada ronco de Porsche, em cada televisão ligada.
56 anos depois, ainda cabe um “Oh Lord”.
Rocksy