Tudo que a gente tinha era um ingresso para o show e uma lata de Pringles

Meu primeiro show de rock foi dos Rolling Stones. Comecei devagar, né?

Era 13 de abril de 1998. Eu estava na primeira fase de Relações Internacionais e queria muito ver a turnê Bridges to Babylon. Um colega da faculdade tinha uma agência de viagens e estava organizando uma excursão para São Paulo.

Eu nunca tinha viajado sozinha. Nunca tinha ido a São Paulo. Na verdade, nunca tinha ido a show de rock nenhum — nem daquele tamanho, nem menor. Era um dia cheio de primeiras vezes.

Entrei naquele ônibus praticamente sem conhecer ninguém. E saí de lá com uma amiga para a vida inteira.

Algumas amizades começam com um café. A nossa começou com Rolling Stones e uma lata de Pringles.

Bridges To Babylon – São Paulo/98. Foto: Sandra Coelho

Chegamos a São Paulo por volta das oito da manhã. O show seria somente à noite, então passamos o dia inteiro ali, esperando a abertura dos portões da pista de atletismo do Ibirapuera.

Eu só sabia de uma coisa: no fim daquele dia, eu veria os Rolling Stones. O resto seria surpresa. E foi.

Mas, antes de chegar ao palco, precisávamos passar pela revista.

Naquela época, foto de show não era uma coisa automática. Não existia celular na mão de todo mundo, câmera digital ainda não fazia parte da nossa vida e, se você quisesse voltar para casa com algum registro, precisava levar uma máquina fotográfica de verdade. Daquelas com filme.

O problema é que não era permitido entrar com máquina fotográfica.

Tinha gente na porta desistindo das câmeras e jogando equipamento fora para não perder o show. Afinal, depois de viajar horas até São Paulo ninguém ia simplesmente dar meia-volta.

Sandra, porém, já era figurinha carimbada em shows de rock. E figurinha carimbada pensa diferente.

Ela tinha uma lata de Pringles. Tirou as batatas, colocou a câmera dentro e fechou a lata.

Na revista, abriram a sacola, olharam a comida e deixaram passar. Naquele momento, parecíamos quase contraventoras, mas era só uma máquina simples tentando salvar um pedaço da noite.

A Pringles ninguém abriu. Foi assim que a câmera entrou.

Hoje a gente faz centenas de fotos em uma noite e, muitas vezes, nunca mais olha para elas. Naquele dia, cada clique custava um pedaço do filme. Não existia conferir na tela, apagar, repetir ou escolher o melhor ângulo.

Cada clique era contado. Não podia haver desperdício. E não havia garantia nenhuma de que a foto ficaria boa.

A câmera da Sandra era pequena, doméstica, sem recurso algum. Precisava ser, afinal, para caber dentro de uma lata de batatas…

Você fotografava e rezava. Rezava para não ter perdido o clique, para a foto não ter estourado, para o foco ter colaborado e para que, dias depois, quando o filme finalmente fosse revelado, alguma coisa daquele momento ainda estivesse ali.

E estava. Foi assim que salvamos os únicos registros daquela noite.

Como chegamos cedo, conseguimos ficar muito perto do palco. E foi ali que começou outra sequência de surpresas.

Eu não sabia quem era Cássia Eller. Não sabia que ela abriria o show. Na verdade, eu nem sabia direito quem abriria show nenhum.

Eu era absolutamente inexperiente naquele universo e, na minha cabeça, a lógica era muito simples: eu tinha ido ver os Rolling Stones. Então, em algum momento, os portões abririam, eu entraria e apareceriam os Rolling Stones.

Não foi exatamente assim.

Primeiro apareceu Cássia Eller.

E eu descobri Cássia Eller ali, no palco, ao vivo. Sem aviso prévio, sem playlist, sem algoritmo, sem vídeo recomendado e sem alguém me dizendo antes que eu precisava ouvi-la.

Ela simplesmente apareceu. E eu assisti.

Só que ainda não tinha acabado.

Depois de Cássia Eller veio Bob Dylan. Bob Dylan abrindo para os Rolling Stones.

Hoje eu olho para essa sequência e acho absurda: Cássia Eller, Bob Dylan, Rolling Stones. No meu primeiro show de rock.

Capa do DVD do Show da turnê Bridges to Babylon

Eu realmente comecei devagar.

Os Stones entraram. Eu estava em êxtase.

No meio do show, uma ponte começou a avançar do palco principal até um pequeno palco montado no meio da pista. E, de repente, eles estavam ali, cercados pela multidão, tocando quase dentro dela.

Eu estava muito perto. Em determinado momento, Mick Jagger passou a poucos metros de mim. Cinco metros, talvez. Quase trinta anos depois, obviamente minha memória não carrega uma trena, mas aquela imagem continua muito viva.

Para quem nunca tinha ido a um show de rock, não era exatamente uma estreia modesta.

Um amigo da faculdade que estava conosco tinha cerca de 1,95 m de altura — uma vantagem competitiva bastante injusta em qualquer show. Quando os Stones passaram pela passarela, ele conseguiu bater na mão de todo mundo. E ainda voltou para casa com as baquetas do Charlie Watts.

Eu voltei com outras coisas: a lembrança da minha primeira viagem sozinha, da primeira vez em São Paulo, do primeiro grande show. De descobrir Cássia Eller sem nem saber que ela apareceria. De ver Bob Dylan antes dos Rolling Stones. De Mick Jagger a poucos metros de mim.

E de uma amizade que começou naquele ônibus e atravessou décadas, continentes e muitas outras histórias.

Na época, eu não tinha dimensão disso tudo. Eu estava colecionando momentos.

Algumas histórias começam muito antes de a gente imaginar que um dia vai contá-las.

Foi nessa viagem que conheci a Sandra. Quase trinta anos depois, continuamos amigas. Em 2023, quando viajei sozinha para Londres, ela me recebeu por lá.

Algumas memórias sobrevivem das formas mais improváveis.

Às vezes, cabem dentro de uma lata de Pringles.

Eu e Sandra, em Londres
Eu e Sandra em 2023, Londres, amigas desde aquela noite dos Stones

Rocksy