Chuck Berry: 100 anos de rock’n’roll

De Maybellene a Johnny B. Goode, o músico americano transformou o blues em uma linguagem que conquistou adolescentes. Neste 18 de outubro, celebramos o centenário de um dos principais arquitetos do rock’n’roll.

Antes de os Beatles conquistarem a América, dos Rolling Stones transformarem o blues em uma revolução britânica e de a guitarra elétrica se tornar símbolo de rebeldia, um músico de St. Louis já estava escrevendo boa parte do vocabulário do rock. Seu nome era Charles Edward Anderson Berry, mas o mundo o conheceria simplesmente como Chuck Berry.

Nascido em 18 de outubro de 1926, no Missouri, Berry cresceu ouvindo blues, gospel, jazz e country. Admirava a elegância vocal de Nat King Cole e absorveu a energia de guitarristas como T-Bone Walker. Dessa combinação aparentemente improvável surgiria uma sonoridade que ajudou a definir o rock’n’roll dos anos 1950.

Um Cadillac, um Ford e o nascimento de um clássico

Em maio de 1955, Berry viajou até Chicago em busca de uma oportunidade na indústria fonográfica. Seguindo uma indicação de Muddy Waters, procurou a Chess Records, gravadora associada a grandes nomes do blues.

Levou consigo uma composição inspirada na música country Ida Red. Leonard Chess se interessou justamente por aquela mistura de ritmos, e a canção foi transformada em Maybellene.

A história falava de um homem perseguindo sua namorada em uma corrida de automóveis. De um lado, um Cadillac; do outro, um Ford V8. Ciúmes, velocidade e guitarra elétrica: Berry havia encontrado uma combinação irresistível para a juventude americana.

Maybellene alcançou o primeiro lugar nas paradas de rhythm and blues e o quinto lugar na parada pop americana. Era 1955, e o rock’n’roll ganhava um de seus grandes compositores.

O homem que escreveu a trilha sonora da adolescência

Chuck Berry tinha quase 30 anos quando começou a fazer sucesso entre adolescentes. Ainda assim, compreendia aquele universo como poucos compositores de sua geração.

Em suas canções havia escolas, bailes, carros, garotas, discos e uma vontade permanente de liberdade. Em School Day, a rotina escolar terminava com a promessa de diversão ao som do rock. Em Sweet Little Sixteen, uma adolescente sonhava com os ídolos da música. E em Roll Over Beethoven, a nova geração parecia anunciar que havia chegado a hora de mudar a trilha sonora do mundo.

Mas Berry não escrevia apenas sobre juventude. Criava pequenas histórias, com personagens, conflitos e humor. Suas letras tinham movimento, imagens e uma naturalidade que aproximava o rock da narrativa popular americana.

Johnny B. Goode: uma guitarra, um solo e uma lenda

Em 1958, Chuck Berry lançou aquela que se tornaria sua composição mais emblemática.

Johnny B. Goode conta a história de um jovem do interior da Louisiana que não dominava a leitura e a escrita, mas sabia tocar guitarra de maneira extraordinária. A mãe acreditava que seu talento ainda faria seu nome brilhar.

A música trazia elementos da própria trajetória de Berry, embora seu personagem fosse fictício. O riff de abertura, inspirado na tradição da guitarra de rhythm and blues, tornou-se um dos mais reconhecíveis da história da música.

E havia outro detalhe impossível de ignorar: o jeito de tocar.

Com sua guitarra Gibson, Berry transformava solos em espetáculo. Tocava com os joelhos flexionados, caminhava pelo palco e executava o famoso duckwalk, movimento que se tornaria sua marca registrada.

Décadas depois, aquele estilo ainda estaria presente nas performances de inúmeros guitarristas.

Elvis Presley e os clássicos de Chuck Berry

A música de Chuck Berry também encontrou espaço no repertório de Elvis Presley, outro protagonista da transformação do rock’n’roll em um fenômeno cultural.

Em 20 de agosto de 1955, poucos meses depois da gravação original de Maybellene, Elvis apresentou a canção no programa radiofônico Louisiana Hayride, acompanhado por Scotty Moore e Bill Black.

Ao longo de sua carreira, Presley interpretaria outras composições de Berry, incluindo Johnny B. Goode, Memphis, Tennessee e Too Much Monkey Business.

Uma das mais marcantes foi Promised Land, gravada em dezembro de 1973, nos estúdios Stax, em Memphis, e lançada como single em setembro de 1974.

A canção, que narra uma viagem pelos Estados Unidos em busca de uma vida melhor, ganhou uma interpretação vigorosa de Elvis, mostrando como o repertório de Berry permanecia atual quase duas décadas depois de seus primeiros sucessos.

Os alunos britânicos de Chuck Berry

Quando os jovens músicos britânicos começaram a descobrir o blues e o rock americano, Chuck Berry já era uma referência obrigatória.

Os Beatles gravaram versões de Roll Over Beethoven e Rock and Roll Music. Os Rolling Stones escolheram Come On, uma composição de Berry, como seu primeiro single, lançado em 1963.

Keith Richards foi um de seus admiradores mais conhecidos. Anos depois, o guitarrista dos Stones organizaria os concertos que deram origem ao documentário Hail! Hail! Rock ‘n’ Roll, lançado em 1987 e dirigido por Taylor Hackford.

A influência de Berry atravessou ainda a música de artistas como os Beach Boys, Bruce Springsteen e incontáveis bandas de garagem.

Seu legado não estava apenas nos riffs de guitarra, mas também na maneira de construir uma canção de rock: direta, dançante e capaz de contar uma história em poucos minutos.

Uma guitarra viajando pelo universo

Em 1977, a NASA lançou as sondas espaciais Voyager 1 e Voyager 2, levando a bordo os chamados Discos de Ouro, registros com sons, imagens e músicas selecionados para representar a vida e a cultura da Terra.

Entre obras de Bach, Beethoven e músicas tradicionais de diferentes regiões do planeta, havia uma gravação de Johnny B. Goode.

A escolha colocou Chuck Berry em uma companhia extraordinária: sua guitarra passou a integrar uma mensagem destinada a possíveis civilizações que um dia encontrem as sondas.

Poucos símbolos poderiam resumir melhor a dimensão cultural de sua música.

Hail! Hail! Rock ‘n’ Roll

Em 1986, Chuck Berry integrou a primeira turma de artistas homenageados pelo Rock & Roll Hall of Fame. Sua apresentação foi feita por Keith Richards, reconhecimento de uma influência que atravessava o Atlântico e diferentes gerações.

Berry continuou se apresentando durante décadas e recebeu importantes homenagens, incluindo um Grammy pelo conjunto de sua obra.

Morreu em 18 de março de 2017, aos 90 anos. Meses depois, chegou ao público Chuck, seu último álbum de estúdio, com composições inéditas.

Neste 18 de outubro de 2026, o centenário de seu nascimento não celebra apenas um dos pioneiros do rock’n’roll. Celebra um compositor que deu ao gênero personagens, histórias e uma guitarra impossível de esquecer.

De St. Louis a Liverpool, dos palcos dos Rolling Stones às profundezas do espaço, a música de Chuck Berry continua sua viagem.

Go, Johnny, go!

Rocksy


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Chuck Berry: 100 Years of Rock ‘n’ Roll

From Maybellene to Johnny B. Goode, the American musician transformed the blues into a musical language that captivated teenagers. This October 18, we celebrate the centenary of one of rock ‘n’ roll’s founding architects.

Before the Beatles conquered America, before the Rolling Stones turned the blues into a British revolution, and before the electric guitar became a symbol of rebellion, a musician from St. Louis was already writing much of rock ‘n’ roll’s vocabulary. His name was Charles Edward Anderson Berry, but the world would come to know him simply as Chuck Berry.

Born on October 18, 1926, in Missouri, Berry grew up listening to blues, gospel, jazz and country music. He admired Nat King Cole’s elegant vocal delivery and absorbed the energy of guitarists such as T-Bone Walker. From this seemingly unlikely combination emerged a sound that helped define rock ‘n’ roll in the 1950s.

A Cadillac, a Ford and the Birth of a Classic

In May 1955, Berry travelled to Chicago in search of an opportunity in the recording industry. Following a recommendation from Muddy Waters, he approached Chess Records, a label associated with some of the greatest names in blues.

He brought along a composition inspired by the country song Ida Red. Leonard Chess was particularly interested in its unusual blend of musical styles, and the song evolved into Maybellene.

It told the story of a man chasing his girlfriend in a car race. On one side, a Cadillac; on the other, a Ford V8. Jealousy, speed and electric guitar: Berry had discovered an irresistible combination for American teenagers.

Maybellene reached number one on the rhythm and blues chart and number five on the American pop chart. It was 1955, and rock ‘n’ roll had found one of its great songwriters.

The Man Who Wrote the Soundtrack to Teenage Life

Chuck Berry was nearly 30 when he began finding success with teenage audiences. Yet he understood their world better than many songwriters of his generation.

His songs were filled with schools, dances, cars, romance, records and a constant desire for freedom. In School Day, the classroom routine gave way to the promise of rock ‘n’ roll. In Sweet Little Sixteen, a teenage girl dreamed of her musical idols. And in Roll Over Beethoven, a new generation seemed ready to change the world’s soundtrack.

But Berry did more than write about teenagers. He created miniature stories, complete with characters, conflicts and humour. His lyrics were full of movement and imagery, connecting rock ‘n’ roll to the storytelling traditions of American popular culture.

Johnny B. Goode: A Guitar, a Solo and a Legend

In 1958, Chuck Berry released what would become his most iconic composition.

Johnny B. Goode tells the story of a young man from rural Louisiana who struggles with reading and writing but possesses an extraordinary gift for playing the guitar. His mother believes that one day his talent will make his name shine.

Although Johnny was a fictional character, the song drew partly from Berry’s own life. Its opening guitar riff, rooted in the rhythm and blues tradition, became one of the most instantly recognisable introductions in popular music.

And then there was the performance itself.

With his Gibson guitar, Berry turned guitar solos into a visual spectacle. He bent his knees, moved across the stage and performed his famous duckwalk, which became his unmistakable trademark.

Decades later, elements of that stagecraft would remain visible in the performances of countless guitarists.

Elvis Presley and Chuck Berry’s Classics

Chuck Berry’s music also found a place in the repertoire of Elvis Presley, another central figure in transforming rock ‘n’ roll into a cultural phenomenon.

On August 20, 1955, just months after the original recording of Maybellene, Elvis performed the song on the Louisiana Hayride radio programme, accompanied by Scotty Moore and Bill Black.

Throughout his career, Presley would interpret other Berry compositions, including Johnny B. Goode, Memphis, Tennessee and Too Much Monkey Business.

One of the most memorable was Promised Land, recorded in December 1973 at Stax Studios in Memphis and released as a single in September 1974.

The song, which tells the story of a journey across the United States in search of a better life, received a powerful interpretation from Elvis, demonstrating how Berry’s songwriting remained relevant almost two decades after his first hits.

Chuck Berry’s British Students

When young British musicians began discovering American blues and rock ‘n’ roll, Chuck Berry was already essential listening.

The Beatles recorded versions of Roll Over Beethoven and Rock and Roll Music. The Rolling Stones chose Berry’s Come On as their debut single in 1963.

Keith Richards became one of Berry’s most devoted admirers. Years later, the Rolling Stones guitarist helped organise the concerts that formed the basis of Hail! Hail! Rock ‘n’ Roll, the 1987 documentary directed by Taylor Hackford.

Berry’s influence also extended to the Beach Boys, Bruce Springsteen and countless garage bands.

His legacy was not limited to guitar riffs. He helped establish a songwriting formula that was direct, danceable and capable of telling a complete story in just a few minutes.

A Guitar Travelling Through the Universe

In 1977, NASA launched the Voyager 1 and Voyager 2 spacecraft, each carrying a Golden Record containing sounds, images and music selected to represent life and culture on Earth.

Alongside compositions by Bach and Beethoven and traditional music from different parts of the world, the recordings included Chuck Berry’s Johnny B. Goode.

The selection placed Berry in extraordinary company. His guitar became part of a message intended for any possible civilisation that might someday encounter the spacecraft.

Few symbols could better illustrate the cultural reach of his music.

Hail! Hail! Rock ‘n’ Roll

In 1986, Chuck Berry joined the inaugural class of the Rock & Roll Hall of Fame. He was inducted by Keith Richards, recognising an influence that had crossed the Atlantic and reached several generations of musicians.

Berry continued performing for decades and received numerous honours, including a Grammy Lifetime Achievement Award.

He died on March 18, 2017, aged 90. A few months later, Chuck, his final studio album, was released, featuring new compositions.

On October 18, 2026, the centenary of his birth celebrates more than one of rock ‘n’ roll’s pioneers. It honours a songwriter who gave the genre unforgettable characters, stories and a guitar sound that changed popular music forever.

From St. Louis to Liverpool, from the Rolling Stones’ stages to the depths of space, Chuck Berry’s music continues its journey.

Go, Johnny, go!

Rocksy