ROCK LAGUNA — 1987 e 1988

Houve um verão em que Laguna virou endereço do rock.

Era fevereiro de 1987. O rock brasileiro vivia um momento de grande efervescência, e aquela geração tinha aprendido que não precisava esperar o eixo Rio–São Paulo para viver grandes shows. Bastava um palco, algumas boas bandas e um público disposto a cantar até perder a voz.

Em Laguna, a ideia ganhou forma.

ROCK LAGUNA I — 1987

Rock Laguna I - 1987

O Rock Laguna I aconteceu nos dias 6, 7 e 8 de fevereiro de 1987, no Centro Esportivo Municipal, com produção do empresário tubaronense Evaldo Marcos, da Cosmos Produções, e apoio da Prefeitura de Laguna.

Um registro publicado pelo jornal Zero Hora, em 7 de fevereiro daquele ano, anunciava o festival e destacava que Laguna estaria movimentada naquele fim de semana.

A proposta era ambiciosa: colocar Laguna no mapa dos grandes eventos de rock daquele verão.

E a programação ajudava a explicar o tamanho da aposta.

Na sexta-feira, o público recebeu Camisa de Vênus, Sempre Livre e Grupo Tubarão.

No sábado, foi a vez de Encaixe Postal, Ave de Rapina, Kromo, Expresso, Inteligence, Engenheiros do Hawaii e Titãs.

Não era pouca coisa.

Era uma mistura de nomes que já ocupavam espaço no rock brasileiro com bandas que representavam a cena regional. E talvez esteja justamente aí uma das coisas mais interessantes do Rock Laguna: ele não tratava a cena local como simples coadjuvante. Ela também estava naquele palco.

Para quem vivia o verão em Laguna naquele período, um festival daquele tamanho significava mais do que uma programação de shows.

Era uma cidade que, por alguns dias, respirava música.

O rock estava nas conversas, nos cartazes, nos encontros, nas ruas e na expectativa de quem esperava a próxima noite.

Mas o verão, como sempre, tinha seus próprios planos.

No domingo, chuva e vento forte obrigaram a produção a transferir os shows para a segunda-feira, a partir das 20 horas.

E foi nessa noite que apareceu Lobão.

UM CORTE PARA A MINHA MEMÓRIA NO ROCK LAGUNA

Eu era só uma menina.

Tinha 9 ou 10 anos e passava as férias de verão em Laguna. Naquela época, era tranquilo passear à noite pelo calçadão com as coleguinhas.

Até que, de repente, um agito tomou conta do lugar.

Correria, pessoas gritando, pedindo autógrafos…

Eu estava no meio daquela movimentação e não fazia ideia do que estava acontecendo.

Foi quando um adulto, alto e cabeludo, me puxou pela mão para me tirar da confusão e disse:

“CUIDADO COM ESSA PEQUENININHA!”

Era Lobão.

Naquele momento, eu não poderia imaginar que aquela cena, aparentemente tão pequena, ficaria guardada na minha memória por tantos anos.

E é justamente por isso que, quando penso no Rock Laguna, não lembro apenas dos palcos, das bandas e das noites de verão.

Lembro também daquela mão segurando a minha no meio da confusão.

Uma lembrança curta, quase um instante, mas que atravessou décadas.

E agora voltamos ao palco.

Lobão abriu o espetáculo de encerramento e, segundo os relatos sobre o festival, o público acompanhou as músicas em coro.

Mas a noite ainda guardava outra cena.

Com o frio tomando conta, Lobão voltou ao palco. Dessa vez, acompanhado pelo Grupo Zero, para cantar “Me Chama”, música de sua autoria.

Frio, chuva, rock e uma cidade que acabava de viver seu primeiro Rock Laguna.

Talvez seja justamente essa imagem que faça o festival parecer menos uma lista de bandas e mais uma lembrança.

Um palco.

Uma noite fria.

Um festival que tinha acabado de enfrentar chuva e vento.

E Lobão voltando para cantar mais uma vez.

Segundo relatos da época, o evento recebeu um público estimado em cerca de 15 mil pessoas por noite — um número que ajuda a dimensionar o impacto que aquele festival teve, embora deva ser entendido como estimativa.

O Rock Laguna I também levou o nome da cidade para além da temporada de verão. O festival chegou a ser noticiado nacionalmente, inclusive pela televisão.

Mas talvez o mais interessante seja olhar para aquele fevereiro de 1987 com os olhos de hoje.

Porque, quando a gente fala de rock brasileiro dos anos 80, é fácil lembrar dos grandes centros, dos discos, das rádios e dos festivais que entraram para a história.

Só que o rock também acontecia longe deles.

Acontecia nas cidades do interior.

Nas praias.

Nos ginásios.

Nos estádios municipais.

Nas estradas que as bandas atravessavam para chegar até o próximo palco.

Acontecia onde havia gente querendo ouvir música ao vivo.

E aconteceu em Laguna.

O Rock Laguna I foi uma dessas histórias que poderiam facilmente desaparecer entre cartazes antigos, fotografias guardadas em caixas, ingressos esquecidos e lembranças de quem esteve lá.

E talvez seja justamente por isso que vale a pena contar essa história novamente.

Porque a história da música não está apenas nos grandes festivais que ganharam livros, documentários e registros oficiais.

Ela também vive nas lembranças de quem esteve lá.

E é também por isso que a Rocksy quer olhar para esses acontecimentos.

Para reunir registros, histórias e lembranças de quem viveu a música de perto — no palco, nos bastidores, na plateia ou simplesmente pelas ruas de uma cidade em noite de verão.

O Rock Laguna I foi apenas um desses momentos.

Um festival que colocou grandes nomes do rock brasileiro e bandas da cena regional no mesmo palco.

Um festival que enfrentou chuva e vento, mudou sua programação e continuou.

Um festival que deixou memórias.

E que, décadas depois, ainda consegue fazer alguém dizer:

“Eu estava lá.”

Mas a história não terminou ali.

Um ano depois, Laguna abriu novamente as portas para o rock. E, desta vez, o festival voltou ainda maior.

ROCK LAGUNA II — 1988

Rock Laguna II - 1988

Se 1987 havia mostrado que Laguna podia entrar na rota do rock brasileiro, 1988 tratou de deixar isso ainda mais claro.

O festival voltou. E voltou maior.

Mesmo assim, durante aqueles dias, Laguna virou ponto de encontro de uma geração que via o rock brasileiro ocupar cada vez mais espaço nas rádios, nos discos e na televisão.

E quem estava ali ainda nem imaginava o tamanho que alguns daqueles nomes alcançariam depois. Alguns daqueles artistas já eram conhecidos… tocavam nas rádios e faziam parte daquele momento efervescente do rock brasileiro. Outros ainda construíam o caminho que os colocaria entre os nomes lembrados até hoje. Porque nós olhamos para 1988 sabendo o que aconteceu depois.

Mas muita gente que estava chegando por ali estava vivendo tudo no tempo presente. Muitos dos clássicos que hoje a gente conhece de cor ainda estavam acontecendo, sendo compostos, lançados e tocando nas rádios naquele exato momento. E Laguna estava ali para vê-los acontecer.

Durante aqueles dias de fevereiro, a cidade ganhou outra personalidade. O verão já trazia movimento, mas o festival somava outra camada à paisagem: guitarras, juventude, uma energia que misturava estrada, praia e música nova sendo tocada ao vivo. E então, como se já fizesse parte do roteiro não escrito, a chuva apareceu de novo.

Assim como no ano anterior, o tempo interferiu e parte da programação precisou ser adiada. Dois verões. Dois festivais. Nos dois, a chuva também quis fazer parte. Talvez por isso algumas lembranças sobrevivam tão bem ao tempo. Não porque tudo tenha saído perfeito, mas justamente porque foi real. Com improviso, com espera, com histórias que cada um levou dali de um jeito.

Quase quatro décadas depois, o Rock Laguna continua existindo de um jeito que nenhum cartaz conseguiria registrar por inteiro. Está nas fotografias que sobraram, nas histórias de quem esteve lá e também naquelas lembranças incompletas em que um detalhe permanece nítido enquanto todo o resto vai se perdendo no tempo.

E está na música. Muitas das canções que atravessaram aqueles dias continuam sendo tocadas, cantadas, revisitadas. Mudaram os formatos, mudaram as formas de ouvir, passaram-se décadas. Mas elas seguem por aí.

Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas quando a gente olha para o Rock Laguna hoje. O festival terminou. A música, não.

Talvez seja assim que a memória funcione. A gente esquece datas, confunde a ordem dos acontecimentos, mas guarda uma música, uma chuva fora de hora, uma estrada, uma multidão. Ou um instante aparentemente pequeno que, tantos anos depois, ainda consegue nos levar de volta ao mesmo lugar.

No meu caso, ficou a lembrança daquela menina que nem pôde ir ao show, mas acabou no meio da movimentação depois do cancelamento. Lobão me puxando pela mão, abrindo espaço e dizendo para terem cuidado com “essa pequenininha”.

Ficou aquele papel, o autógrafo que a memória transformou num enorme “H”. E uma história que eu ainda contaria muitos anos depois. Talvez eu não soubesse, naquele momento, exatamente o que estava acontecendo em Laguna.
Mas algumas histórias começam muito antes de a gente perceber que, um dia, vai querer contá-las.

E esta é uma delas.