A vida rock’n’roll de André Seben

Tem gente que passa pela música e tem gente que permanece. André Seben é uma dessas pessoas.

Para contar essa história, talvez o melhor não seja começar por uma data, mas por um primeiro show.
O show da Banda Vício, no Salão da Capela São Bento, no Itacorubi, em 1988.

Na plateia, a irmã e os colegas do ônibus que ia para a escola, no Centro de Florianópolis. Um público pequeno, mas muito barulhento.
No palco: Hudson Cabala (Black Sheep) cantor principal, Sérgio Negrão (quando ainda era só um brigadeiro) de backing à la Branco Mello, Jefferson na bateria e Bruno na guitarra.
Um momento registrado em fita VHS, imagem tremida, áudio ruim, com pouca iluminação.
De forma despretenciosa, alguma coisa estava nascendo ali.

Não percam este grande momento da música catarinense:

Assista o vídeo da Banda Vício

Rolou até uma entrevista improvisada, um momento “Almost Famous“, na sala da catequese. Enquanto André falava, Jesus fazia a figuração com um olhar atento ao pequeno prodígio da música.
E sim, claro que sim, eu fui obrigada a assistir o vídeo todo. E não foi somente para trazer um material mais completo para esta matéria…
Foi por nostalgia, por reviver a adolescência de uma época em que o mundo era analógico, a plateia estava atenta e ninguém se preocupava em tirar fotos do momento.
Eu sorri!

A banda durou pouco, menos de um ano. Mas nunca deixou de existir.
Da base da Vício viria, logo depois, a Udigrudis. Mas aí é outra história.

André Seben durante entrevista da Banda Vício, em 1988, com um quadro de Jesus ao fundo.
André e Jesus

Os Udigrudis — o underground de Florianópolis

Da base da Vício nasceram Os Udigrudis.

André trocou a guitarra pelo baixo, e aquela experiência que havia começado ainda na adolescência ganhou fôlego para atravessar boa parte da década. Jefferson Mello esteve na bateria nos primeiros anos e, por volta de 1993, deu lugar a Luciano Mendes.

O nome já entregava um pouco do espírito da coisa. “Udigrudi”, uma apropriação bem-humorada de underground, combinava com uma Florianópolis em que o rock independente encontrava espaço nos bares, nos pequenos palcos e numa turma que fazia acontecer.

A banda circulava justamente por essa cena alternativa da Ilha, ligada a lugares como o Berro D’Água e o Barão de Munchausen, nomes que ainda sobrevivem na memória de quem viveu o rock de Florianópolis nos anos 1990.

Foram sete anos de música, mudanças de formação, noites e histórias. Tempo suficiente para que aquilo que começara com a Vício deixasse definitivamente de ser apenas uma aventura de adolescência.

Assista à Udigrudis no Teatro do CIC, em 1994.

Naquela época, fazer rock significava procurar espaço, encontrar gente disposta a tocar, insistir e, principalmente, conquistar o público.

Talento — e cabelos — eles tinham de sobra.

Udigrudis, no início da cena musical de Florianópolis
Hudson Cabala, André Seben, Sérgio Negrão, Márcio Tesser e Jefferson Mello

OS CHEFES — ON THE ROAD

Quando a Udigrudis chegou ao fim, em 1997, André não ficou muito tempo longe de uma nova formação.
No ano seguinte, começava um novo capítulo: Os Chefes.

O clássico nunca morre. E, com eles, vinha em forma de rock, blues, soul, country e composições próprias.

A partir dali, a música ganhou outra dimensão. Vieram mais shows, mais viagens, casas cheias e um público que acompanhava a banda por diferentes cidades. Concórdia, Timbó, Criciúma, Lages, Brusque, Camboriú, Blumenau, Curitiba — o mapa foi aumentando e, com ele, os quilômetros rodados.

Os Chefes tinham presença de palco, repertório e músicos incríveis. Era uma fase em que tocar significava encarar estrada de verdade: equipamentos, deslocamentos, noites longas e aquela rotina que transforma um grupo de músicos em equipe.

E alguns desses momentos ficaram registrados.

Assista aos Chefes tocando “Rolling Stones”, em registro do DVD Ao Vivo em Curitiba, gravado no John Bull Pub.

Vieram também os discos e encontros que, muitos anos depois, ainda renderiam bons causos de bastidores.

Como neste caso da fã de cabelos vermelhos que implorou por uma foto. São Os Chefes. São famosos.
Mas a humildade prevalece.

Os Chefes com Rita Lee
Léo Piovezani, André Seben, Rita Lee, Robson Dias e Fábio Franchini

As memórias envolvendo Seben não param de aparecer. Basta puxar um fio e surge outro palco, outra viagem, outro episódio.
Uma delas vem de Fábio Franchini, vocalista d’Os Chefes:

“Eu conheço o André há quase 40 anos e teria milhões de histórias para contar. Mas uma delas, para mim, mostra muito da genialidade dele.
Os Chefes estavam se preparando para uma turnê de 10 anos e ensaiávamos com uma formação maior, com percussão, teclado e um naipe de metais. No meio daquela massa sonora, o Seben parou o ensaio para corrigir um pequeno intervalo nos metais: estavam tocando uma terça maior, e era uma terça menor.
Como ele conseguiu perceber aquilo no meio de tudo, eu não sei. Por isso eu tiro o chapéu para o meu parceiro.”

— Fábio Franchini

Quase ao mesmo tempo, outro projeto começava a tomar forma: o Quarteto Banho de Lua. André chegou a fazer parte daquele início, mas, naquele momento, a estrada d’Os Chefes acabou falando mais alto.

Anos depois, ele voltaria ao Banho de Lua.

E a história continua…


QUARTETO BANHO DE LUA — A GOOD MOON RISING

Há bandas que, de tanto tocar, acabam virando parte da paisagem sonora de uma cidade. O Quarteto Banho de Lua é uma delas.

Desde 1999, o grupo atravessa noites, palcos e gerações, carregando no repertório músicas que muita gente reconhece já nas primeiras notas. Rolling Stones, The Doors, Creedence, Led Zeppelin…

Mas o Banho de Lua nunca foi apenas repertório.

Foi também presença, memória e encontros construídos noite após noite.

No primeiro ano, foram cerca de 100 shows. Um começo que já dava uma boa pista do que viria pela frente.

Assista ao Quarteto Banho de Lua ao vivo.

Talvez uma das razões para essa trajetória ter atravessado tantos anos esteja justamente na amizade construída entre eles. Muitos se conhecem há mais de três décadas — e isso aparece no palco.

E essa parceria continua aparecendo de outras formas.

André e Sérgio Negrão, por exemplo, também se apresentam como dupla, dividindo voz e instrumentos em um formato mais intimista. Já tive a oportunidade de assistir aos dois assim, e é bonito perceber como tantos anos de convivência musical aparecem nos pequenos detalhes: um olhar, uma entrada, uma música que parece começar antes mesmo de alguém contar até quatro.

Quarteto Banho de Lua – da esquerda para a direita: Adriano Baboo, Sérgio Negrão, Adriano Barvik e André Seben. Amigos dos palcos e da vida.

THE BEATLES PELA VIDA — THE LONG AND WINDING ROAD

Naquela noite, em 2016, o palco parecia pequeno para tanta história reunida. Músicos de diferentes gerações cruzaram seus caminhos, voluntariamente, unidos pelo amor aos Beatles e por uma causa que ia muito além da música: ajudar o próximo.

Convidada para fotografar o Beatles Pela Vida, tive a oportunidade de acompanhar não apenas o show, mas também parte dos ensaios. Vi de perto o encontro de grandes músicos, afinando instrumentos, dividindo repertório e fazendo aquilo que sabem fazer melhor: música — e gente feliz, claro!

Registro do The Beatles Pela Vida
André Seben e Robson Dias

Mais uma curva nessa longa e sinuosa estrada.

FARRA DO BOWIE — CHANGES

A Farra do Bowie nasceu em Florianópolis, em 2012, de um encontro de amigos e fãs de David Bowie.

O que começou com a vontade de tocar músicas do artista britânico rapidamente ganhou identidade própria — e deixou de caber na ideia de homenagem.

Dessa mistura nasceu um som que passeava pelo glam, punk, rock alternativo e proto-punk.

A Farra criou um universo próprio.

Farra do Bowie em foto de divulgação
Da esquerda para a direita: André Seben, Lulu Kichalowsky, Paulo Prog. Abaixo: Rafael ‘Rassa’ Alves, Calvin Trezzi

O primeiro show veio no Carnaval de 2014, na reinauguração do Taliesyn Rock Bar. A partir dali, o grupo passou a ocupar cada vez mais espaço na cena independente da cidade, circulando por festivais, eventos culturais e casas de show.

Em 2016, veio o primeiro álbum autoral, Born to Be a Faggot, além do single Saí Pra Comprar Um Cigarro. Depois surgiram novas músicas, videoclipes e parcerias que ampliaram ainda mais essa identidade.

Uma delas foi Como Você Me Quer?, em parceria com Rohmanelli. A música e o clipe usavam justamente o exagero visual do glam e do punk para brincar com padrões de masculinidade, aparência e comportamento dentro do próprio universo do rock.

*Assista ao clipe de Como Você Me Quer?, lançado em 2018.*

Era a Farra fazendo o que sabia fazer bem: misturar referência, provocação e bom humor sem perder a própria voz.

Os anos passaram, a formação mudou e a banda seguiu encontrando novos caminhos. Vieram outros singles, produções audiovisuais e uma retomada dos palcos depois da pandemia.

Para André, porém, a Farra carregaria ainda outro significado.

Depois de um período afastado por questões de saúde, foi também com ela que ele voltou aos palcos.

E talvez isso explique por que essa fase ocupa um espaço tão importante na trajetória dele. Não era apenas mais uma banda, mais um repertório ou mais uma sequência de shows.

Era voltar.

Voltar à guitarra, aos amigos, ao palco.

Voltar ao lugar que sempre foi dele.

WHOLE LOTTA MONSTROS

Em 2025, André Seben apresentou Monstros, seu trabalho autoral. Depois de tantos anos tocando em diferentes formações, dessa vez o repertório leva a sua assinatura — e coloca em primeiro plano não apenas o guitarrista, mas também o compositor. No projeto, ele assume os teclados e outros instrumentos, participando de diferentes etapas da construção musical.

Há muito de tudo o que veio antes, claro, mas agora transformado em matéria-prima para criar. A experiência acumulada nos palcos não precisa ser anunciada: está na maneira de tocar, nas escolhas e na personalidade expressa em cada faixa.

Cada música ajuda a revelar uma nova fase: “Monstros”, “Não Preciso Esperar”, “Vale o Risco” e “Por Prazer”. Mais do que simplesmente reunir composições próprias, o EP permite conhecer um pouco mais desse músico monstro, multifacetado, por meio de suas criações.

E talvez essa seja a melhor parte: depois de tantos anos de música, a criatividade continua. E, pelo jeito, há muito mais por vir.

André Seben com sua guitarra em sépia
André Seben

A Rocksy acompanhou bem de perto alguns desses capítulos — da época dos Chefes às muitas noites com o Quarteto Banho de Lua.

André é um músico sensacional e, fora dos palcos, uma pessoa igualmente incrível.

Como adoramos um trocadilho, existe por aqui um jeito muito particular — e carinhoso — de chamá-lo.

André Meuben. 🤘