Brian Setzer: do Stray Cats à big band, o rockabilly que nunca envelheceu
Paixão por ‘gatinhos de rua’
Em 1998, eu morava nos Estados Unidos e passava horas dentro de lojas de discos.
Era outro tempo. CD ainda era objeto de desejo, as prateleiras pareciam infinitas e algumas lojas tinham aquelas estações de audição com fones enormes. Você escolhia um disco pela capa, colocava no aparelho e podia ouvir antes de decidir se ele iria para casa com você.
Foi assim que Brian Setzer entrou na minha vida.
Achei que aquilo tinha cara de ser bom.

Coloquei os fones.
Apertei o play.
E fiquei enlouquecida.
Não tinha algoritmo dizendo que eu poderia gostar. Não havia playlist personalizada, recomendação automática nem um aplicativo me lembrando do que eu tinha ouvido na semana anterior.
Era só uma capa, curiosidade e aquele pequeno risco maravilhoso de descobrir alguma coisa nova.
O CD acabou vindo comigo.
Era The Dirty Boogie, da Brian Setzer Orchestra.
Um gato que nunca soube ficar parado
Brian Setzer já tinha provocado uma pequena revolução bem antes disso.
No começo dos anos 1980, ao lado de Lee Rocker e Slim Jim Phantom, ele colocou o Stray Cats no meio de uma década que parecia pouco interessada em contrabaixo acústico, topete, Gretsch e rockabilly.
“Rock This Town”, “Stray Cat Strut”, “Runaway Boys” e “(She’s) Sexy + 17” atravessaram o tempo e ajudaram a apresentar o gênero a um público que talvez jamais tivesse chegado sozinho a nomes como Eddie Cochran, Gene Vincent e Carl Perkins.
Essa talvez seja uma das grandes habilidades de Brian Setzer: não tratar música antiga como peça de museu.
Ele pega o passado, liga numa guitarra, aumenta o volume e devolve aquilo vivo.
Quando três gatos já não eram suficientes
Nos anos 1990, Setzer resolveu fazer uma coisa ainda mais improvável.
Montou uma big band.
A Brian Setzer Orchestra juntou guitarra rockabilly, metais, jazz, swing e rock’n’roll num momento em que praticamente ninguém esperava ouvir aquilo novamente nas rádios.
E foi justamente ali que nasceu The Dirty Boogie, o disco que eu colocaria nos fones naquela loja em 1998. E esse, obviamente, faz parte da minha coleção.
O álbum traz faixas como “This Cat’s on a Hot Tin Roof”, “The Dirty Boogie”, “Sleepwalk”, uma nova versão de “Rock This Town” e “Jump Jive an’ Wail”.
Anos depois, quando perguntaram a Setzer quais discos de sua carreira estavam entre seus favoritos, ele escolheu justamente dois: o primeiro álbum do Stray Cats e The Dirty Boogie.
Bom gosto, Brian.
Concordamos.
Você, com certeza, já ouviu Brian Setzer. Só não está lembrando.
Mesmo quem não reconhece o nome de imediato provavelmente já esbarrou na música dele no cinema.
Em O Máskara (1994), com Jim Carrey, a Brian Setzer Orchestra aparece com “Straight Up” — o que combina perfeitamente com aquele universo de swing, metais e exagero visual do filme.
Em La Bamba (1987), Brian Setzer aparece interpretando Eddie Cochran e canta “Summertime Blues” na trilha sonora.
Brian Setzer em La Bamba — “Summertime Blues”
Já em Tentáculos (Deep Rising, 1998), aparece “Lady Luck”, também da Brian Setzer Orchestra.
Ao longo da carreira, Setzer acumulou diversas participações em trilhas sonoras de filmes e produções para televisão.
Ou seja: mesmo que o nome não venha à cabeça na hora, o som provavelmente já passou pelos seus ouvidos.
A Gretsch também tem voz
É difícil separar Brian Setzer daquela guitarra grande, oca, geralmente laranja, pendurada no corpo.
A relação dele com a Gretsch 6120 virou parte de sua identidade.
Ei, eu disse GRETSCH, não GRETCHEN! Embora o SWING, de maneiras diferentes, esteja presente, é bom não confundir.
Mas instrumento nenhum explica tudo.
O que faz Setzer ser reconhecível é o jeito de tocar.
Tem twang, jazz, country, blues, rockabilly, velocidade e uma sujeira muito bem comportada.
Ou quase.
O som dele é daqueles que bastam alguns segundos para você saber quem está tocando.
O susto de 2025 — e a volta
A história ganhou um capítulo bem menos divertido nos últimos anos.
Depois de enfrentar problemas de saúde que afetaram sua capacidade de tocar guitarra, Setzer precisou interromper atividades e uma turnê planejada para 2025 acabou não acontecendo.
Em 2026, porém, ele voltou à estrada.
Saudável novamente, Brian se reuniu a Lee Rocker e Slim Jim Phantom, retomando a formação original do Stray Cats.
A turnê atravessou os Estados Unidos ao longo do ano, e tem novas datas programadas para novembro e dezembro.
Em agosto, o trio ainda tocou “Rock This Town” no Tonight Show, na primeira apresentação do Stray Cats em um programa noturno da televisão americana em mais de 35 anos.
E há música nova também.
O grupo lançou “Stampede” e uma versão de “Teenage Heaven”, de Eddie Cochran, nas primeiras gravações inéditas do trio em anos.
Curiosamente, Mick Jagger já havia sugerido que eles gravassem “Teenage Heaven” ainda em 1980.
O Mick sempre tem boas ideias 🙂
Levaram só algumas décadas para obedecer.
Ainda funciona
Quase três décadas depois daquela tarde numa loja americana, eu ainda tenho o CD.
E talvez essa seja a melhor explicação para Brian Setzer.
A música pode vir de outra época.
O topete pode ser dos anos 50.
A guitarra pode ser de 1959.
O contrabaixo pode ocupar metade do palco.
Não importa.
Ninguém fica parado.
Old, but good.
Rocksy