Mike McCready transforma as memórias de Seattle em graphic novel e rock opera
Em Farewell to Seasons, guitarrista do Pearl Jam revisita a cena que mudou o rock, mistura ficção e memória e transforma mais de duas décadas de ideias em quadrinhos e música.
Seattle virou um daqueles lugares que a história do rock transformou em mito. No fim dos anos 1980 e começo dos 90, uma cena formada por músicos que circulavam pelos mesmos bares, ensaios e festas explodiu para o mundo. Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden e Alice in Chains passaram a ocupar capas de revistas, rádios e estádios — mas, junto com o sucesso, vieram perdas que ainda atravessam quem viveu tudo de perto.
Mike McCready é um deles.
E poucas pessoas têm tanta propriedade para revisitar essa história quanto ele. McCready está no Pearl Jam desde a formação da banda, em 1990, e participou das gravações instrumentais que chegaram a Eddie Vedder e se transformaram em músicas como “Alive”, “Once” e “Footsteps”.
De lá para cá, atravessou mais de três décadas de turnês, discos e palcos no centro daquela explosão musical de Seattle. Também fez parte de projetos profundamente ligados à mesma cena, como Temple of the Dog e Mad Season.
É justamente desse percurso — entre o início despretensioso, o sucesso gigantesco e as perdas pelo caminho — que Farewell to Seasons ganha outra dimensão. Mais do que nostalgia, é uma tentativa de entender o que ficou, Seattle deixou de ser apenas uma cena local e virou símbolo de uma geração.
A história acompanha David Williams, personagem inspirado no próprio McCready, ainda adolescente e descobrindo a música em uma Seattle anterior à explosão mundial do grunge. Bandas e personagens fictícios, uma escolha que permite ao guitarrista revisitar experiências reais sem transformar o projeto em uma autobiografia convencional.
Durante o período da pandemia, ele voltou a pensar nos amigos e músicos que perdeu pelo caminho — entre eles Chris Cornell, Layne Staley e Mark Lanegan — Uma pergunta que atravessa o projeto: depois de tudo o que aquela geração viveu, teria valido a pena?
Essa talvez seja a questão central de Farewell to Seasons.
A obra não olha para o grunge apenas como uma sequência de discos clássicos, guitarras distorcidas e camisas de flanela. Fala também sobre amizade, ambição, dependência, fama e sobre o preço que muitas pessoas pagaram quando uma pequena comunidade musical passou a carregar as expectativas de uma indústria musical inteira.
O projeto foi escrito por Mike McCready e Mark Sable, com ilustrações de Sebastián Piriz, arte de capa de R. Kikuo Johnson e prefácio de Cameron Crowe, diretor de Almost Famous e velho conhecido da história do Pearl Jam.
E a guitarra, evidentemente, não ficou apenas nas páginas.
Algumas edições de Farewell to Seasons acompanham um LP de 11 faixas inéditas, criado como se fosse uma gravação produzida pelo personagem David Williams dentro da própria história. O disco também leva McCready a um território pouco habitual: pela primeira vez, ele assume os vocais principais.
Nas gravações aparecem músicos ligados à cena de Seattle e à trajetória do guitarrista, entre eles Duff McKagan, Stefan Lessard, Mike Musburger, Chris Friel, Nate Yaccino e Molly Sides.
Depois de mais de três décadas no Pearl Jam, ele escolhe outra maneira de contar histórias além da guitarra:
Não como historiador.
Nem exatamente como memorialista.
Mas como alguém que esteve lá.
Em uma cidade que virou símbolo de uma geração inteira, Mike McCready parece mais interessado nas pessoas por trás da lenda do que na própria lenda.
Porque antes de Seattle virar “Seattle”, havia apenas um monte de garotos tocando guitarra.
E fazendo barulho suficiente para acordar o mundo.
Rocksy News — 6 de outubro de 2026